The Doctor - Reflexões sobre Medicina e Humanidade
Henry Tate, um industrial inglês que fez fortuna com o refino de açúcar no final do século XIX, fundou em 1889 uma galeria de artes que leva seu nome. Tate encomendou ao pintor inglês Luke Fildes uma pintura realista que tivesse apelo social para incluí-la na recém-criada galeria. Sendo assim, Fildes pintou o quadro The Doctor (1891), que se encontra até hoje na galeria Tate em Londres. O filho mais velho de Fildes, Philip, havia morrido de febre tifoide e acredita-se tenha sido a inspiração para a realização da pintura. A ideia de Fildes era a representação do médico do seu tempo.
A pintura é bastante conhecida e retrata um médico vitoriano debruçado sobre uma criança em contemplação, enquanto os pais se encontram impotentes na periferia. A criança em seu leito de morte está na sala e repousa sobre travesseiros em duas cadeiras. Não é mostrado nenhum instrumento médico, já existentes à época. A iluminação e o foco da cena se concentram na reflexão do médico e sua impotência diante da morte da criança, mesmo após todos os esforços que parecem ter ocorrido.
Esta obra representa a falibilidade do médico e da medicina frente aos desafios impostos pela doença. A sensação de ter sido insuficiente em proporcionar a saúde, a cura, o bem-estar para o seu paciente. A reflexão de que estar à disposição do seu paciente é o que realmente importa quando lidamos com seres humanos.
Da Arte à Realidade Médica
Essa reflexão sobre a impotência médica diante da morte, tão bem retratada por Fildes, continua profundamente atual. Nos últimos anos, muito se tem discutido sobre humanizar o médico. Um verbo com o sufixo "izar" representando tornar, transformar em algo. Ora, médicos são humanos, nada pode nos humanizar, nos tornar humanos. Podemos almejar exprimir mais nossos sentimentos virtuosos de humanos, sermos mais humanos, humanar mais...
O erro médico e a responsabilidade civil do médico estão relacionados a essas virtudes humanas ou melhor, à falta delas. O médico erra quando não age de forma virtuosamente humana, quando põe em risco a vida de um igual, por imprudência, imperícia ou negligência. Por isso é tão doloroso para um bom médico ser acusado injustamente de erro médico. Além de enfrentar a sua impotência diante da morte e do sofrimento, responder como se lhe faltassem virtudes de um ser humano. O insucesso frente às doenças não é erro médico.
Recentemente, tragédias têm ocorrido em nossa classe médica, com colegas que não suportam a execração pública de seus nomes e de sua profissão após acusações injustas de erro médico. Profissionais dedicados que sucumbem à impossibilidade de olhar seus pares de cabeça erguida e seus pacientes sem carregar o peso de terem seus nomes associados a crimes como homicídio, mesmo quando inocentes.
Com a massificação dos meios de comunicação através das redes sociais, nos transformamos em curtidas e "likes". A difusão rápida da informação faz com que se tome como universal comportamentos particulares. Nos levam a fazer generalizações e olharmos todos com a mesma lente. Somos digitais, menos humanos, menos empáticos, menos sociais.
É preciso resgatar nossa humanidade essencial, reconhecer que médicos são, antes de tudo, seres humanos falíveis que dedicam suas vidas ao cuidado de outros humanos. É preciso humanar — não apenas os médicos, mas todos nós, para que possamos exercer empatia, discernimento e justiça antes de julgar aqueles que escolheram carregar o peso de lidar diariamente com a fragilidade da vida humana.